
Há algum tempo, conversando com a Aline sobre a crise dos 25 – sim, estou no meio dela, obrigada – nos demos conta de algumas coisas a respeito de nós mesmas. Nós enquanto integrantes de uma comunidade maior. Drama queen.
Fazemos parte de uma espécie de sub-geração da geração anos 80. Eu diria que fazemos parte do seleto grupo que nasceu entre 1981 e 1988, 89 talvez. Batizamos esse grupo de Geração Camaleão. Somos um grupo de pessoas que presenciou conscientemente as mudanças ocasionadas pela “era digital”. Eu excluo os últimos anos da década pra tentar reduzir a margem de erro, hehehehe.
Tiramos fotos com máquinas analógicas, fizemos nossos trabalhos de colégio à mão - logo em seguida em máquinas de escrever e, já entrando no mundo digital, nas primeiras gerações de computadores (lembram do Windows 3.11?) -, nossas pesquisas eram feitas na biblioteca da escola, em grandes coleções de Barsas, cujas dúvidas tirávamos através de cartas (correio, meus caros, a instituição mais confiável do Brasil), não perdíamos a hora do Carrossel, porque senão já era – abençoado seja o Silvio Santos, que inventou a reprise semanal –, e rebobinamos as VHS antes de devolver na locadora (senão cobravam multa).
Também acompanhamos pelo menos 4 mudanças de moeda (do Cruzado pro Cruzado Novo, desse pro Cruzeiro, do Cruzeiro pro Cruzeiro Real e desse pro Real amado), e na escola aprendemos a converter os valores. Acompanhamos o surgimento da Internet discada. Muitos de nós tiveram os primeiros e-mails da história - aquele carol12@portoweb.com.br. Vimos o Zaz virar Terra, e teríamos centenas de cds de instalação da Aol, se tivéssemos guardado. Conversamos em salas de bate-papo (os chats) – os mais avançadinhos tinham Mirc, depois ICQ, agora MSN e Skype.
Acompanhamos o nascimento da telefonia móvel, primeiro com aqueles tijolões gigantescos dos nossos pais, depois com aqueles Gradiente/Nokia que eram a metade do tamanho dos primeiros, mas ainda assim eram gigantescos. Claro que esses só ligavam e vinham com o jogo da cobrinha, porque ainda levou um certo tempo até os SMS começarem a funcionar.
Enfim, uma série de situações pelas quais passamos e que se transformaram em uma outra realidade num piscar de olhos. E daí? E daí que a Geração Camaleão é a geração que aprendeu a se adaptar.
Pessoas mais velhas – ligeiramente mais velhas – já sofrem para acompanhar algumas mudanças, se questionam do porquê das coisas (como um amigo meu de 79 que relutou intensamente a entrar no twitter), apesar de ainda se manterem atualizadas. Para os muito mais velhos a diferença é gritante, mas enfim.
Para os mais novos, a tecnologia sempre foi assim, eles são genuinamente integrados (meu irmão, de 93, joga Counter Strike conectado via Skype com os amigos. Com os comentários em tempo real, os itens do cenário deixam de ser simplesmente um gráfico quando ele diz “Sai de trás dessa caixa, seu cagão”. Isso, pra mim, é conexão genuína, natural, eles não pensam no que estão fazendo e no quão genial isso é. É normal pra eles.).
Já para a Geração Camaleão, as novidades são todas interessantes. Porque lembramos de como era antes, mas não vivemos nessa época tempo suficiente para nos apegar. Todas as novidades são quase que imediatamente absorvidas. Isso explica, por exemplo, porque o Twitter não pegou para quem nasceu na década de 90 e, apesar de algumas exceções mais antenadas, também não pegou para quem nasceu antes dos anos 80. Também explica porque tantos de nós tem tantos perfis nos mais diferentes sites de relacionamento (Orkut, Facebook, MySpace, etc.) ao mesmo tempo, e também o porque de termos tido quase uma dezena de endereços de e-mail de diversos provedores. Também explica porque amamos tanto a Google, e porque gostamos tanto de softwares que aglutinam (o Google Reader dá conta de todos os feeds que queremos receber; o Adium, por exemplo, une MSN, Gtalk, Skype, todos na mesma janelinha; o meadiciona.com junta todos os links dos nossos milhões de perfis numa mesma página, e assim vai).
Claro, com algumas limitações. Não sabemos mais escrever à mão, mas ainda precisamos imprimir textos grandes, porque ler na tela do computador não dá. Trocamos de aparelho celular e de operadora com a facilidade de quem troca de blusa, mas nos apegamos ao nosso número que tem anos de existência, tanto que criamos uma nova necessidade (a da portabilidade).
Mas o ponto principal vem da adaptação. Como crescemos nos adaptando, aprender e mudar não é um desafio tão grande. Aliás, aprendemos com uma facilidade impressionante. Não é raro conversarmos com alguém sobre um software dizendo “olha, é bem auto-explicativo” e não entender como pode que a pessoa não conseguiu usar de cara. Porque, da mesma forma como aprendemos a nos adaptar, aprendemos a aprender, a ler os menus, a procurar por tutoriais se for preciso. Identificamos palavras desconhecidas pelo contexto (inclusive em outras línguas) facilitando o uso de neologismos, testamos atalhos no teclado e tudo, em questão de dias, às vezes minutos, vira rotineiro.
É diferente para quem é mais velho, a adaptação é mais penosa e menos orgânica. É diferente para quem é mais novo, que já nasceu adaptado e com os vícios da informação fácil (não raro meu irmão desiste das coisas porque não aprendeu na primeira vez – plug’n’play way of life). Para a nossa geração, qualquer coisa é possível, conseguimos nos adaptar em qualquer meio, somos camaleões tecnológicos.
Claro que isso é só uma piração de quem não posta há mais de mês. Mas que pode ser comprovado cientificamente, ah, pode. =P