terça-feira, 10 de novembro de 2009

Ando sonhando cada coisa...

Outros sonhos (Chico Buarque/ Carioca)



Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
Sonhei que ela corava
Quando me via
Sonhei que ao meio-dia
Havia intenso luar
E o povo se embevecia
Se empetecava João
Se impiriquitava Maria
Doentes do coração
Dançavam na enfermaria
E a beleza não fenecia

Belo e sereno era o som
Que lá no morro se ouvia
Eu sei que o sonho era bom
Porque ela sorria
Até quando chovia
Guris inertes no chão
Falavam de astronomia
E me jurava o Diabo
Que Deus existia
De mão em mão o ladrão
Relógios distribuía
E a polícia já não batia
De noite raiava o sol
Que todo mundo aplaudia
Maconha só se comprava
Na tabacaria
Drogas na drogaria
Um passarinho espanhol
Cantava esta melodia
E com sotaque esta letra
De sua autoria
Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
E por sonhar o impossível, ai
Sonhei que tu me querias

Soñé que el fuego heló
Soñé que la nieve ardia
Y por soñar lo impossible, ay, ay
Soñe que tu me querias.

sábado, 7 de novembro de 2009

Quando as horas passam mais rápido do que se gostaria...

Nos últimos tempos eu me entreguei quase totalmente a esse lance de internet, e mídias sociais, e downloads e stuff. É tudo muito tentador, dado o fato de que a web, na verdade, é um mundo que se cria especialmente para nós mesmos. Vamos aonde queremos, falamos sobre o que queremos, nos reinventamos, criamos personagens, conhecemos outros. O que é fascinante, por um lado - acompanhar de perto algumas das mudanças sociais que pensadores estudados no início da faculdade descreviam nos seus textos -, perturbador por outro - um mundo de elementos à minha disposição, minha curiosidade neurótica e a falta de tempo criaram, pra mim, uma nova forma de estresse.

Agora, eu quero ver tudo, conhecer tudo, eu pesquiso, investigo, vou atrás. Mas nunca é o suficiente. Porque, diferentemente das pessoas que conseguem direcionar o interesse pra uma área só, eu não consigo. Ao mesmo tempo que quero ver todas as temporadas de Dexter, acompanhar as atualizações no Twitter ou escrever algo relevante no meu blog, também quero ler o último livro do Saramago, ir no cinema o maior número de vezes possível pro meu bolso, quero dançar, sair pra caminhar com meu cachorro, viajar pra alguns lugares, abrir minha própria empresa, estudar o palestrante antes de ir na sua palestra, aprender a tocar sax, entre milhões de outras coisas.

A verdade é que a web tomou proporções na minha vida que eu não esperava, talvez porque ma grande parte dos meus melhores amigos vivam intensamente as suas possibilidades. Mas são proporções que eu vou ser obrigada a reduzir, pra conseguir viver do jeito que eu quero. Porque o tempo que eu perco aqui é desproporcional à quantidade de conhecimento que eu adquiro, e totalmente proporcional ao meu aumento de peso =P.

Uma vida saudável pede menos computador.

sábado, 31 de outubro de 2009

Críticas, ou eu me achando a expert

Quinta eu fui nos show da Hotel Santa Clara e da Apanhador Só, no Porão do Beco. Algumas coisas precisam ser ditas.

A HSC é muito fofa, e as músicas são muito legais, e tal, mas eu senti que o pessoal se mixou um pouco no palco. Foi estranho, não sei dizer exatamente por que, mas era como se eles fossem mais um som ambiente do que protagonistas de um show. Eu já vi shows em que eles dominavam, talvez o palco do Porão seja pequeno demais pra banda (eram 10 pessoas, na quinta), mas aconteceu. A única vez em que deu pra senti-los mesmo (ui) foi quando a Mauren Veras entrou (convidada, pra substituir a Laura, que estava em SP) e o seu vozeirão - muito bom, diga-se de passagem - apareceu.


Já a Apanhador Só me surpreendeu. Quando a Karina Levitan (percussionista mor) se fué pra Londres, eu pensei que a banda poderia ficar desfalcada. Mas não. Os instrumentos apareceram muito mais, o som ficou mais pesado e muito bem trabalhado. Não que não tenha sentido falta da roda de bicicleta, mas acho que quando ela voltar, deverá ser pra somar, e não fazer com que a banda volte ao jeitinho inicial. Aí vai ficar massa.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Pornô Poético

Entendo que o sexo faz parte da vida.

Lendo Olavo Bilac, descobri num poema que, enfim, sexo faz parte da high literature.
DELÍRIO

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
- Mais baixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
- Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.

No seu ventre pousei minha boca,
- Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca.
Moralistas, perdoai! Obedeci!


SATÂNIA

Nua, de pé, solto o cabelo às costas,
Sorri. Na alcova perfumada e quente,
Pela janela, como um rio enorme
De áureas ondas tranqüilas e impalpáveis,
Profusamente a luz do meio-dia
Entra e se espalha palpitante e viva.
Entra, parte-se em feixes rutilantes,
Aviva as cores das tapeçarias,
Doura os espelhos e os cristais inflama.
Depois, tremendo, como a arfar, desliza
Pelo chão, desenrola-se e, mais leve,
Como uma vaga preciosa e lenta,
Vem lhe beijar a pequenina ponta
Do pequenino pé macio e branco.

Sobe... cinge-lhe a perna longamente;
Sobe...- e que volta sensual descreve
Para abranger todo o quadril!- prossegue,
Lambe-lhe o ventre, abraça-lhe a cintura,
Morde-lhe os bicos túmidos dos seios,
Corre-lhe a espádua, espia-lhe o recôncavo
Da axila, acende-lhe o coral da boca,
E antes de se ir perder na escura noite,
Na densa noite dos cabelos negros,
Pára confusa, a palpitar, diante
Da luz mais bela dos seus grandes olhos.

E aos mornos beijos, às carícias ternas,
Da luz, cerrando levemente os cílios,
Satânia os lábios úmidos encurva,
E da boca na púrpura sangrenta
Abre um curto sorriso de volúpia...

(via Obvious)

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Piração de quem não posta há meses



Há algum tempo, conversando com a Aline sobre a crise dos 25 – sim, estou no meio dela, obrigada – nos demos conta de algumas coisas a respeito de nós mesmas. Nós enquanto integrantes de uma comunidade maior. Drama queen.

Fazemos parte de uma espécie de sub-geração da geração anos 80. Eu diria que fazemos parte do seleto grupo que nasceu entre 1981 e 1988, 89 talvez. Batizamos esse grupo de Geração Camaleão. Somos um grupo de pessoas que presenciou conscientemente as mudanças ocasionadas pela “era digital”. Eu excluo os últimos anos da década pra tentar reduzir a margem de erro, hehehehe.

Tiramos fotos com máquinas analógicas, fizemos nossos trabalhos de colégio à mão - logo em seguida em máquinas de escrever e, já entrando no mundo digital, nas primeiras gerações de computadores (lembram do Windows 3.11?) -, nossas pesquisas eram feitas na biblioteca da escola, em grandes coleções de Barsas, cujas dúvidas tirávamos através de cartas (correio, meus caros, a instituição mais confiável do Brasil), não perdíamos a hora do Carrossel, porque senão já era – abençoado seja o Silvio Santos, que inventou a reprise semanal –, e rebobinamos as VHS antes de devolver na locadora (senão cobravam multa).

Também acompanhamos pelo menos 4 mudanças de moeda (do Cruzado pro Cruzado Novo, desse pro Cruzeiro, do Cruzeiro pro Cruzeiro Real e desse pro Real amado), e na escola aprendemos a converter os valores. Acompanhamos o surgimento da Internet discada. Muitos de nós tiveram os primeiros e-mails da história - aquele carol12@portoweb.com.br. Vimos o Zaz virar Terra, e teríamos centenas de cds de instalação da Aol, se tivéssemos guardado. Conversamos em salas de bate-papo (os chats) – os mais avançadinhos tinham Mirc, depois ICQ, agora MSN e Skype.

Acompanhamos o nascimento da telefonia móvel, primeiro com aqueles tijolões gigantescos dos nossos pais, depois com aqueles Gradiente/Nokia que eram a metade do tamanho dos primeiros, mas ainda assim eram gigantescos. Claro que esses só ligavam e vinham com o jogo da cobrinha, porque ainda levou um certo tempo até os SMS começarem a funcionar.
Enfim, uma série de situações pelas quais passamos e que se transformaram em uma outra realidade num piscar de olhos. E daí? E daí que a Geração Camaleão é a geração que aprendeu a se adaptar.

Pessoas mais velhas – ligeiramente mais velhas – já sofrem para acompanhar algumas mudanças, se questionam do porquê das coisas (como um amigo meu de 79 que relutou intensamente a entrar no twitter), apesar de ainda se manterem atualizadas. Para os muito mais velhos a diferença é gritante, mas enfim.

Para os mais novos, a tecnologia sempre foi assim, eles são genuinamente integrados (meu irmão, de 93, joga Counter Strike conectado via Skype com os amigos. Com os comentários em tempo real, os itens do cenário deixam de ser simplesmente um gráfico quando ele diz “Sai de trás dessa caixa, seu cagão”. Isso, pra mim, é conexão genuína, natural, eles não pensam no que estão fazendo e no quão genial isso é. É normal pra eles.).

Já para a Geração Camaleão, as novidades são todas interessantes. Porque lembramos de como era antes, mas não vivemos nessa época tempo suficiente para nos apegar. Todas as novidades são quase que imediatamente absorvidas. Isso explica, por exemplo, porque o Twitter não pegou para quem nasceu na década de 90 e, apesar de algumas exceções mais antenadas, também não pegou para quem nasceu antes dos anos 80. Também explica porque tantos de nós tem tantos perfis nos mais diferentes sites de relacionamento (Orkut, Facebook, MySpace, etc.) ao mesmo tempo, e também o porque de termos tido quase uma dezena de endereços de e-mail de diversos provedores. Também explica porque amamos tanto a Google, e porque gostamos tanto de softwares que aglutinam (o Google Reader dá conta de todos os feeds que queremos receber; o Adium, por exemplo, une MSN, Gtalk, Skype, todos na mesma janelinha; o meadiciona.com junta todos os links dos nossos milhões de perfis numa mesma página, e assim vai).

Claro, com algumas limitações. Não sabemos mais escrever à mão, mas ainda precisamos imprimir textos grandes, porque ler na tela do computador não dá. Trocamos de aparelho celular e de operadora com a facilidade de quem troca de blusa, mas nos apegamos ao nosso número que tem anos de existência, tanto que criamos uma nova necessidade (a da portabilidade).

Mas o ponto principal vem da adaptação. Como crescemos nos adaptando, aprender e mudar não é um desafio tão grande. Aliás, aprendemos com uma facilidade impressionante. Não é raro conversarmos com alguém sobre um software dizendo “olha, é bem auto-explicativo” e não entender como pode que a pessoa não conseguiu usar de cara. Porque, da mesma forma como aprendemos a nos adaptar, aprendemos a aprender, a ler os menus, a procurar por tutoriais se for preciso. Identificamos palavras desconhecidas pelo contexto (inclusive em outras línguas) facilitando o uso de neologismos, testamos atalhos no teclado e tudo, em questão de dias, às vezes minutos, vira rotineiro.

É diferente para quem é mais velho, a adaptação é mais penosa e menos orgânica. É diferente para quem é mais novo, que já nasceu adaptado e com os vícios da informação fácil (não raro meu irmão desiste das coisas porque não aprendeu na primeira vez – plug’n’play way of life). Para a nossa geração, qualquer coisa é possível, conseguimos nos adaptar em qualquer meio, somos camaleões tecnológicos.

Claro que isso é só uma piração de quem não posta há mais de mês. Mas que pode ser comprovado cientificamente, ah, pode. =P

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Corrigindo e aproveitando

Pouco tempo atrás, escrevi sobre um filme de vampiros. Como as pessoas sabem, eu adoro vampiros. Adorar vampiros, entretando, não faz de mim uma pessoa viciada em tudo o que envolve o mundo dessas adoráveis criaturas. O que, por sua vez, me leva a cometer alguns erros derivados da má informação.

O filme Let the right one in me fez cair numa dessas armadilhas. Fui corrigida a tempo, mas a preguiça me fez deixar as informações meio, assim... incorretas. Enfim, que as verdades sejam ditas:

1. Eli não é uma menina.
Ela fala várias vezes no filme "I'm not a girl", mas eu e minha enorme capacidade de abstração ignoramos essas falas displiscentemente. No livro, Eli é um menino que sofre uma mutilação nos idos anos de 1800. No filme essas referências são muito sutis, o que me faz pensar que eu não sou tão culpada assim;

2. O título do filme não é apenas baseado na lenda de que os vampiros devem ser convidados a entrar. No IMDB diz que tanto o livro quanto o filme têm seu título inspirado na música Let the right one slip in, de Morrissey (não achei link melhor. fuck of!).

Acho que eram essas as considerações. Gracias ao Rafa, que entende de verdade.

Agora, vamos aproveitar o post temático e falar: True Blood está ficando para trás. O que aconteceu com os roteiristas depois do final da primeira temporada?! De onde surgiram tantas criaturas míticas e tantas DRs? Isso tá virando uma mistura de Mulheres Apaixonadas com Mutantes. Sério.


Eu assisto a série e, devo dizer, desde a primeira temporada alguns diálogos já me irritavam. Mas tudo bem, a gente entende, às vezes é só uma questão de estilo, no big deal. Agora, o cúmulo chegou no terceiro episódio, e só piorou, com juras de amor e discussões de relacionamento totalmente desnecessárias entre Sookie e Bill, Tara e Sookie, Tara e Eggs, Sam e Daphne (a nova shape-shifter). Muitas delas enquanto os personagens estavam nus ou transando, outra situação que me chamou a atenção.

Eu não sei se o ibope da coisa tava caindo lá nos states, ou se os espectadores escreveram cartinhas pedindo, mas as cenas de sexo, de nudez e de putaria estão ultrapassando o nível RPH (Relevante Para a História) desde o segundo episódio. Eu não sou santa, não, até curto uma putaria, mas também não sou idiota, e não curti me sentir assistindo a uma novela das oito ao ver True Blood.

Outra coisa importante: que bobagem é essa de enfiar personagens mitológicos o tempo inteiro? O nome da série deveria mudar para True Sítio do Pica-Pau Amarelo. Não bastasse a Sookie ser telepata, o Sam ser um metamorfo e um minotauro sexual ter aparecido, agora todos eles estão encontrando parzinhos? Fora o minotauro, é claro, mas eu não duvido muito que isso não aconteça nos próximos episódios. A guerra entre vampiros e humanos está sendo abordada de uma maneira muito rica e com muito pano pra manga. Essas historinhas-pra-boi-dormir paralelas tendem a fazer com que os profissionais hollywoodianos percam a linha do raciocínio e acabem colocando a série no limbo das séries que poderiam ter dado certo mas foram destruídas pela falta de pulso firme dos condutores do enredo.

Tá, isso tudo foi um desabafo gigante. Eu vou continuar assistindo a série, da mesma forma como fiz com outras. Mas eu tenho certeza que algo melhor poderia ser feito.

Minha inspiração para o post.

domingo, 19 de julho de 2009

Post Mortem

Demorou, mas finalmente vou escrever algumas palavras sobre o Michael Jackson.

Na real, só estou usando ele como desculpa pra escrever sobre outro filme que eu adoro, e que não está em cartaz desde 1976: Bugsy Malone [ou, na tradução sempre criativa das distribuidoras para o português: Quando as Metralhadoras Cospem].

Bugsy Malone é um filme do Alan Parker, o diretor de O Expresso da Meia Noite (1978) e Evita (1996) para os menos informados. Não sou super-fã do diretor, mas confesso que tenho o dvd do Expresso, e curto Evita [sim, e daí?] Enfim, o diretor é esse, e o filme é um musical feito todo com crianças interpretando adultos.

Bugsy Malone conta uma história de gangsters disputando territórios e armas. Bugsy (Scott Baio) é o mocinho malandrinho do filme, que se apaixona pela bela Blousy Brown (Florrie Dugger), enquanto uma guerra entre os gangsters Fat Sam (John Cassisi) e Dandy Dan (Martin Lev) é travada.

Na história, as armas de fogo são trocadas por cuspidoras de torta. Se você leva uma torta na cara, está "morto", ou não, né, já que as regras dos jogos das crianças são sempre bastante maleáveis. E os carros são miniaturas movidas a pedais. E tudo é adaptado para o tamanho das crianças. É demais.
Certo, mas o que isso tudo tem a ver com o Michael Jackson? Pra quem é bom entendedor, nem preciso escrever que o Michael tem uma participação nesse filme. Ele é Razamataz, o pianista. O filme encerra, inclusive, com o Razamataz tocando uma música de paz, que culmina em "You Give a Little Love", a música da Coca-cola, hehehehe. Tudo bem que, em 76, ele já tinha 18 anos, longe de ser uma criança. Mas eu ouvi falarem pouco desse filme recentemente, e como eu acho ele muito divertido, resolvi aproveitar a deixa. E por favor, deixem as piadas sobre Michael e as crianças de fora. Se bem que ele sempre tá metido no meio delas, né? [metido no bom sentido, humpf!]



Minha personagem favorita, entretanto, é Tallulah, que é ninguém menos que Jodie Foster, bancando a crescidinha. Tallulah é a namorada de Fat Sam, e a vedete do cabaret. Bem safadinha, vive tentando seduzir Bugsy. A cena musical dela é meio ruim, mas ela atuando é extremamente bom, considerando seus 14 aninhos.



O filme em si é fraco, devo admitir... meio bobo. Mas só o fato de serem centenas de crianças já me faz tirar o chapéu pro Alan Parker. Sem contar toda a ambientação e a direção de arte. Ai, eu adoro!!! Quer dizer... pena que o Michael morreu, né? Triste... triste...